23 de abril de 2011




Carta de Lygia Clark para seu filho -1970-



Meu filho,
Você é um ser.
Existe na medida do mundo.
É pouco.
O mundo é a constatação da realidade exterior que te cerca.
É a tua medida inicial.
É o teu começo mas não o teu fim.
É o chão da tua expressividade pois você é um ser vertical.
Para cima do chão há o “invisível”.
Você pode olhar os seus pés mas não a sua própria imagem.
Esta você a percebe.
Na verticalidade está a medida da sua procura.
Quando você aceitar a simples constatação da vida, aí sim, será o seu começo.
O primeiro sentimento será de perda pois tudo que cai na constatação é vivido como ganho.
Tudo adquirido como perda até a integração absoluta do “o percebido” no seu interior.
É a própria dinâmica da vida: perde-ganha.
Quando você se sentir no mais absoluto desespero você está sendo salvo.
Solte e aceite a tua intuição que te levará a uma aparente solução – solução esta sempre provisória.
Aceite o provisório pois jamais o processo pode parar.
A vida pode vir a ser uma realidade extraordinária desde que você esteja voltado para sua procura interior.
Não há realidade independente do “interior de si”.
Desconfie das coisas claras, a pureza é descoberta dentro da maior conturbação de uma crise. É o ponto luminoso dentro da maior escuridão.
O teu corpo meu filho, é o veículo da tua vivência.
Não o impeça de florir por nada. Cuide dele como você cuida do teu carro.
Toda a tua riqueza interior vai suá-lo, sujá-lo, e até sangrá-lo.
Quando ele estiver gasto externamente você mesmo estará mais inteiriço e completo interiormente.
Você o despirá um dia como a crisálida deixa o casulo.
Ai de você se neste momento você é ainda o início não elaborado pois aí você vai saber que esteve permanentemente morto em vida.

4 comentarios:

Anónimo dijo...

Poeta:

Esta carta goza de belleza literaria y de una no menos importancia conceptual. Valdría la pena analizarla con mayor detenimiento.
Si le escribiera una carta a mi hijo le diría, en esencia:
- no desdeñes nunca tú deseo.
- que no somos el centro del Universo.
- que no podemos ir por el mundo maltratando a los demás sin siquiera mirar atrás.

Un mirlo.

un tordo dijo...

La poética-política de Lygia Clark propone otra percepción del arte, orientada a la desfetichización del objeto artístico, inclusive de esta misma carta. Esta sería en todo caso un punto de partida para la imaginación creadora del receptor- lector. El análisis moralino del mirlo no deja de conmover por su nivel reduccionista e instrumental, sin embargo no dejo de agradecerle su aporte a la discusión.

La Gata Insomne dijo...

Arrea!!!

L.Kancev dijo...

Sí, la carta de Lygia Clark amerita un análisis detenido. Definitivamente le escribiría una carta a un hijo con los puntos antes mencionados más, en estos tiempos donde la verdad discurre a ras del suelo. La mordacidad de su comentario, poeta, es innecesaria por lo que de injusto tiene. ¡Lástima que lastime!. La conducta moral implica coherencia entre decir y hacer y créame que no es nada fácil. Desconozco la moralina. Ojalá no hubiera sido así. La carta de la artista vale la pena. Creo que hay que centrarse en ella.